A história dela mostra que liderança na logística não nasce apenas de oportunidade. Muitas vezes, ela nasce da coragem de criar caminho onde ninguém abriu estrada antes. Em um setor historicamente masculino, marcado por caminhões, estradas, cargas, negociações difíceis e muito preconceito, ela construiu sua trajetória com instinto empreendedor, visão de oportunidade e uma força emocional impressionante.
Hoje, ela é CEO da Transveloz, idealizadora do movimento Mulheres Lideram, membro da Câmara de Comércio Francesa, mãe, esposa e uma mulher que transformou sobrevivência em liderança.
No entanto, essa história não começou pronta. Pelo contrário, começou com mudança de cidade, filho pequeno, escassez, necessidade de trabalhar e uma pergunta simples: “O que eu posso fazer com o que tenho agora?
É uma empresária pernambucana que encontrou na logística um caminho de crescimento, superação e impacto. Formada em Administração de Empresas, com especialização em gestão de negócios e pessoas, ela se tornou CEO da Transveloz, uma transportadora com quase duas décadas de história.
Além disso, Edy também atua como idealizadora do movimento Mulheres Lideram, iniciativa que busca ampliar a visibilidade feminina em espaços de empreendedorismo, liderança e decisão.
Sua trajetória, porém, vai muito além dos títulos. Ela representa milhares de mulheres que aprenderam a empreender por necessidade, amadureceram diante da dor e descobriram, na prática, que coragem também é uma forma de inteligência.
Nasceu em Pernambuco e cresceu em uma família empreendedora. Desde cedo, observava o pai negociando, trabalhando com gado, vendendo carne e movimentando negócios no interior. Esse ambiente plantou nela uma visão prática da vida: estudar, trabalhar e se virar faziam parte da rotina.
Mais tarde, já casada e mãe de um filho pequeno, mudou-se para o interior de São Paulo. O marido havia ido trabalhar com plantação de cana-de-açúcar, mas a nova realidade trouxe desafios. A cidade era pequena, as oportunidades eram limitadas e a rede de apoio praticamente não existia.
Ainda assim, não esperou o cenário ideal. Ao perceber que a região era conhecida como a capital do bitrem, ela enxergou uma oportunidade que muitas pessoas ignorariam.
Se não dava para montar uma concessionária de caminhões, talvez fosse possível lavar os caminhões.
Foi assim que nasceu um lava-rápido de bitrem.
A decisão de abrir um lava-rápido não foi apenas uma ideia de negócio. Na verdade, foi uma resposta à necessidade. Ela precisava cuidar do filho, contribuir financeiramente e, ao mesmo tempo, criar uma rotina possível dentro da realidade que tinha.
Por isso, o primeiro negócio no setor de transporte surgiu da observação. Havia muitos bitrens circulando pela região, mas não havia uma estrutura adequada para atendê-los. Onde outras pessoas viam apenas caminhões passando, ela viu demanda, movimento e oportunidade.
Essa é uma das grandes lições da sua história, empreender nem sempre começa com capital, plano perfeito ou estrutura completa. Muitas vezes, começa com atenção.
Enquanto algumas pessoas esperam o momento certo, outras criam a primeira chance com os recursos disponíveis.
Com o tempo, o contato com o transporte ficou cada vez mais forte. Ela começou a perceber a importância da logística para o funcionamento do país. Afinal, quase tudo que chega às empresas, aos mercados, aos eventos e às casas passa, em algum momento, por uma estrada.
Depois das crises no setor de cana-de-açúcar, a família precisou se reinventar novamente. A carroceria canavieira deu lugar ao baú. A partir daí, o transporte deixou de ser apenas uma alternativa e passou a ser o centro da nova fase empresarial.
Nascia, então, a história da Transvelloz.
No início, a empresa trabalhava bastante com materiais gráficos, papel, agências, eventos e cinema. Como esse tipo de carga era menos visado, fazia sentido para quem estava começando e precisava reduzir riscos. Além disso, ela e o marido participavam diretamente das operações: carregavam, descarregavam, organizavam pallets, emitiam documentos, falavam com clientes e acompanhavam entregas.
Dessa forma, a empresa cresceu com trabalho real, proximidade com o cliente e presença diária na operação.
Entrar no transporte como mulher não foi simples. Enfrentou preconceito, assédio, desconfiança e comentários que tentavam diminuir sua capacidade.
Em muitos momentos, ao chegar para uma reunião, ouviu perguntas como se o verdadeiro chefe ainda estivesse por vir. Para alguns clientes ou parceiros, era difícil aceitar que uma mulher pudesse estar à frente de uma transportadora.
Apesar disso, ela continuou.
Em vez de se definir pelo olhar dos outros, escolheu se orientar pela própria visão de futuro. Sua pergunta interna não era “como os outros me veem?”, mas sim “quem eu sou e onde quero chegar?”.
Essa mudança de foco é poderosa. Quando uma mulher entende o próprio valor, o preconceito ainda pode existir, mas deixa de ser o centro da decisão.
Durante a entrevista, ela menciona a expressão “mulher cristal”, usada para descrever mulheres que acompanham seus maridos caminhoneiros na estrada.
Essas mulheres, muitas vezes invisíveis para o mercado, têm um papel fundamental. Elas cuidam da alimentação, da documentação, da comunicação com clientes, da segurança da carga e, principalmente, do emocional de quem passa dias ou semanas na estrada.
Além disso, a presença feminina pode trazer um olhar mais detalhista para a operação. O cuidado com a mercadoria, a atenção à nota fiscal, a ligação para confirmar informações e o zelo com o processo fazem diferença no resultado.
Portanto, falar sobre mulheres na logística não é apenas falar sobre mulheres dirigindo caminhões ou ocupando cargos executivos. É também reconhecer quem sempre esteve na estrada, no apoio, na organização e na sustentação emocional da jornada.
A pandemia foi um dos momentos mais difíceis para a Transvelloz. Como a empresa atendia fortemente o setor gráfico, eventos e cinema, o faturamento caiu drasticamente. Afinal, se não havia eventos, se os cinemas estavam fechados e se as pessoas não podiam sair de casa, as entregas também diminuíam.
Naquele período, muitos colegas aconselharam a fechar a empresa, guardar dinheiro e proteger apenas os próprios recursos. O medo era compreensível, já que ninguém sabia quanto tempo aquela crise duraria.
Contudo, ela tomou uma decisão diferente.
Ela pensou nas famílias que dependiam da empresa. Pensou nos colaboradores, nos terceirizados, nas esposas, nos filhos e nas pessoas que também precisavam sobreviver. Em vez de olhar somente para si, decidiu dividir recursos e manter o mínimo de dignidade para quem caminhava junto com a empresa.
Essa atitude mostra um tipo de liderança que vai além da gestão financeira. Trata-se de liderança humana.
Embora a pandemia tenha sido devastadora para muitos negócios, ela também acelerou mudanças de comportamento e consumo. Enquanto alguns setores pararam, outros continuaram crescendo. O agronegócio foi um desses caminhos.
Durante lives e conversas com outras empreendedoras, ela percebeu uma nova possibilidade. Se o setor de eventos estava parado, era preciso olhar para áreas que seguiam em movimento.
Foi nesse contexto que ela se aproximou de uma empresa francesa do agronegócio. Mesmo sem ter uma grande estrutura naquele momento, apresentou-se com coragem, conhecimento e uma frase marcante:
“Eu sou do tamanho que você precisa para crescer aqui no Brasil junto comigo.”
Essa resposta resume muito da mentalidade empreendedora. Ela não tentou esconder seus desafios. Ao mesmo tempo, também não diminuiu sua capacidade. Mostrou visão, compromisso e disposição para crescer com o cliente.
Como resultado, abriu uma nova porta para a Transvelloz e fortaleceu conexões internacionais importantes.
Ao longo da conversa, ela reforça três valores centrais: união, verdade e lealdade.
Para ela, muitas mulheres viveram jornadas solitárias. Durante décadas, não havia tantas redes de apoio, mentorias ou espaços de troca. Quem queria crescer precisava aprender tentando, errando, pagando para ver e resistindo.
Hoje, no entanto, existe uma oportunidade maior: construir redes femininas de apoio, visibilidade e colaboração.
É justamente nesse ponto que nasce o movimento Mulheres Lideram. A proposta não é apenas reunir mulheres, mas criar um espaço onde empreendedorismo, ação social e participação política caminhem juntos.
A palavra “política”, nesse caso, não se limita a partidos. Ela representa voz, presença, decisão e participação nas conversas que afetam a vida das mulheres.
Muitas mulheres são potentes, capazes e realizadoras, mas continuam invisíveis. Algumas lideram empresas, sustentam famílias, criam soluções, movimentam comunidades e transformam realidades sem receber reconhecimento proporcional.
Por isso, movimentos como Mulheres Lideram são importantes.
Eles ajudam a abrir espaço para que mais mulheres contem suas histórias, ocupem mesas de decisão e inspirem outras pessoas. Além disso, fortalecem a ideia de que o sucesso de uma mulher não precisa ameaçar outra. Pelo contrário, pode abrir caminho.
Quando uma mulher avança, outras enxergam novas possibilidades.
Entre tantos aprendizados, uma mensagem se destaca, não espere a transformação chegar pronta. Seja você a transformação.
Ela não esperou o cenário perfeito para empreender. Também não esperou aceitação total para entrar no transporte. Muito menos esperou a crise passar para buscar novos caminhos.
Ela usou o que tinha, olhou para a realidade, criou alternativas e seguiu em frente.
Além disso, sua história mostra que liderança verdadeira não é apenas crescer sozinha. Liderar também é abrir espaço, dividir conhecimento, reconhecer a dor dos outros e construir caminhos coletivos.
Edy Rodrigues é CEO da Transveloz, empresária no setor de logística, idealizadora do movimento Mulheres Lideram e uma liderança feminina com trajetória marcada por empreendedorismo, superação e impacto social.
A Transveloz é uma transportadora construída a partir da experiência de Edy Rodrigues e sua família no setor de transporte. A empresa nasceu de uma trajetória prática, iniciada com serviços ligados a bitrens e evoluiu para operações logísticas mais estruturadas.
A história inspira porque mostra uma mulher que enfrentou preconceito, crise financeira, pandemia, desafios familiares e um setor majoritariamente masculino sem abandonar sua visão de futuro.
O movimento Mulheres Lideram defende a união, a visibilidade e o fortalecimento de mulheres em espaços de empreendedorismo, liderança, ação social e decisão.
A principal lição é que não devemos esperar a transformação acontecer. É preciso agir, criar oportunidades com os recursos disponíveis e construir caminhos coletivos com verdade, lealdade e coragem.